segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A informação é uma arma de resistência


Batismo de sangue





Depoimento da Presidente Dilma Rousseff
"... Não é possível supor que se dialogue com pau de arara ou choque elétrico. Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira só pode partir de quem não dá valor à democracia brasileira - disse Dilma, que emocionou a plateia que a ouvia na ocasião. - Eu tinha 19 anos. Fiquei três anos na cadeia. E fui barbaramente torturada, senador. Qualquer pessoa que ousar dizer a verdade para interrogador compromete a vida dos seus iguais. Entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido, senador. Porque mentir na tortura não é fácil. Na democracia se fala a verdade. Na tortura, quem tem coragem e dignidade fala mentira. E isso, senador, faz parte e integra a minha biografia, de que tenho imenso orgulho. E completou: - Aguentar tortura é dificílimo. Todos nós somos muito frágeis, somos humanos, temos dor. A sedução, a tentação de falar o que ocorreu. A dor é insuportável, o senhor não imagina o quanto. .."

Dilma Rousseff

(Dilma Rousseff, em maio de 2008, no Senado Federal, sobre o período em que foi torturada. Questionada pelo senador Agripino Maia, que relembrou uma entrevista em que ela dizia ter mentido na prisão, Dilma afirmou que foi "barbaramente torturada")


Entrevista a Michael Winterbotton

A doutrina do choque

O realizador britânico leva ao cinema o livro da activista Naomi Klein, A doutrina do choque.
Depois de ter ido embora com o Urso de Ouro em 2006 por A Caminho de Guantánamo, a dupla de realizadores formada por Michael Winterbottom e Mat Whitecross regressa à Berlinale com um novo e controverso projecto, que articula a história recente através da implantação do neoliberalismo no mundo. Baseado no best-seller da activista Naomi Klein, A doutrina do choque, este work in progress, projectado fora de concurso na secção Panorama, analisa a posta em prática das teorias do livre mercado formuladas pelo Prémio Nobel Milton Friedman.
O filme aborda como as crises sociais facilitam a entrada em vigor de medidas económicas impopulares, ao tirar proveito da anulação da vontade dos cidadãos. Chile e Argentina, passando pelas ditaduras de Pinochet e Varela, aparecem num filme que também examina a Inglaterra grevista de Thatcher ou a Rússia neoliberal. O epílogo retoma o 11-S e a reconstrução do Iraque, e finaliza com certa esperança: a investidura de Obama e um apelo de Klein à mobilização.

Não teme que este filme seja desqualificado como pura teoria da conspiração?
Não, A doutrina do choque aduz informação para que cada um decida se este é o mundo no qual quer viver, dado que a ideologia dominante se converteu no estado natural das coisas. O livre mercado assumiu-se como idóneo e, por isso, as corporações privadas gerem os recursos do Estado. A crença é que democracia e liberalismo caminham de mão dada; mas se se analisam os exemplos, não é assim.
Estabelece uma relação causal entre as declarações de Donald Rumsfeld contra os burocratas opostos às ideias da Escola de Chicago e a morte de um deles no Pentágono durante os atentados do 11-S.
Obviamente, estes factos são verdadeiros, mas não estamos a afirmar que Rumsfeld assassinou as vozes dissidentes. Faz parte de uma forma dinâmica de relatar os factos e, ao mesmo tempo, de ser provocativo para que as pessoas reflictam.
Era sua intenção satanizar Milton Friedman?
Ele teve a ideia de quem, em momentos de crise, era mais simples aplicar as suas políticas neoliberais. A questão é que, se pensava que era uma forma de melhorar a vida de toda a população, fracassou. Se era a justificação para que os ricos enriquecessem mais e as multinacionais se tornassem mais fortes, acertou. O documentário explicita quais são as consequências da sua tese, uma vez que a informação é uma arma de resistência.
Por que acha que não ocorreu antes a ninguém analisar a história desde este ponto de vista?
O livro de Klein demonstrou ser visionário. Esta crise é tão devastadora e está tão ligada à desregulação do mercado e à falta de controle estatal que vai abrir um debate. Mas o que acontecer vai depender da capacidade de mobilização das pessoas e da participação na discussão mundial.
Pensou inflectir a sua carreira para o documentário?
Não, estou exausto. Agora preparo um projecto de ficção, O assassino dentro de mim, adaptação do livro de Jim Thompson, no qual Cassey Affleck interpreta um xerife que assassina aqueles que ama.









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